{"id":882,"date":"2024-02-26T21:18:55","date_gmt":"2024-02-27T00:18:55","guid":{"rendered":"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/?p=882"},"modified":"2024-11-21T17:52:00","modified_gmt":"2024-11-21T20:52:00","slug":"o-xadrez-na-guerra-fria-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/index.php\/2024\/02\/26\/o-xadrez-na-guerra-fria-parte-i\/","title":{"rendered":"O Xadrez na Guerra Fria"},"content":{"rendered":"\n<p>O jornalista ingl\u00eas Daniel Johnson \u00e9 o autor do excelente livro&nbsp;<em>Rei Branco e Rainha Vermelha<\/em>, que explica a dimens\u00e3o pol\u00edtica que o xadrez ganhou durante a Guerra Fria.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images.chesscomfiles.com\/proxy\/rafaelleitao.com\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/b0de865f-4c36-49ab-aea8-9b3052d0eaf4_image1\/https\/3d0dfcdce2.jpg\" alt=\"Grandes Livros de Xadrez: Rei Branco e Rainha Vermelha | Rafael Leit\u00e3o\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O motivo \u00e9 f\u00e1cil de se compreender: os Estados Unidos queriam mostrar superioridade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e vice-versa. Havia v\u00e1rios campos para se mostrar essa superioridade, por exemplo: na educa\u00e7\u00e3o (o que resultou em reformas educacionais para melhorar o ensino), na tecnologia (o que resultou na corrida espacial), na ind\u00fastria b\u00e9lica (o que resultou na corrida armamentista) e nos esportes. Nesse \u00faltimo campo, ambos investiram pesadamente no treinamento de atletas para eventos como as olimp\u00edadas.<\/p>\n\n\n\n<p>No xadrez, a rivalidade tamb\u00e9m se intensificou. A URSS dominava esse cen\u00e1rio, com um n\u00famero muito maior de clubes de xadrez, de federados e de jogadores de elite. Al\u00e9m disso, houve uma sequ\u00eancia de campe\u00f5es mundiais sovi\u00e9ticos, come\u00e7ando com Mikhail Botvinnik, em 1948 (o campe\u00e3o mundial anterior, Alekhine, nasceu na R\u00fassia, mas como jogador de xadrez ele representava a Fran\u00e7a). Depois de Botvinnik, outros enxadristas sovi\u00e9ticos que detiveram o t\u00edtulo foram Smyslov, Tal, Petrossian e Spassky, nessa ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentando diminuir a desvantagem, nos Estados Unidos, o incentivo ao xadrez aumentou, embora o investimento nesse esporte tenha sido t\u00edmido em compara\u00e7\u00e3o a outras \u00e1reas disputadas com os sovi\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>O sonho americano de ser o ber\u00e7o de um campe\u00e3o mundial de xadrez parecia distante. Foi ent\u00e3o que o jovem Robert James Fischer, ou simplesmente Bobby Fischer, ganhou destaque.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images.chesscomfiles.com\/proxy\/i.pinimg.com\/736x\/62\/86\/6e\/62866e553b515fd975ce5103e2f866b0\/https\/0282e70135.jpg\" alt=\"Bobby Fischer, 1957. | How to play chess, Chess, History of chess\" width=\"450\" height=\"488\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Bobby Fischer<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Ele aprendeu a jogar xadrez com seis anos, ensinado por sua irm\u00e3 mais velha, e ficou obcecado. Aos 14 anos, tornou-se campe\u00e3o americano, o mais novo at\u00e9 hoje. Aos 15, sua m\u00e3e descendente de poloneses, Regina, que simpatizava com o comunismo apesar da persegui\u00e7\u00e3o macarthista (a \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d comunista iniciada pelo senador Joseph McCarthy), escreveu para o primeiro-ministro da URSS Nikita Kruschev pedindo que o filho fosse convidado para um festival da juventude em Moscou. O convite foi enviado. Ao pisar em solo russo, o prod\u00edgio americano exigiu jogar contra o ent\u00e3o campe\u00e3o mundial Botvinnik, o que a organiza\u00e7\u00e3o do festival negou. Fischer ent\u00e3o insultou os anfitri\u00f5es, sendo expulso em seguida.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, Bobby n\u00e3o deixou de enfrentar os russos no tabuleiro pouco depois. O t\u00edtulo de campe\u00e3o americano lhe garantiu uma vaga em seu primeiro torneio Interzonal, em 1958. Esse torneio servia para selecionar participantes do Torneio de Candidatos, cujo vencedor ganhava o direito de jogar contra o campe\u00e3o mundial reinante e, caso vencesse, se tornar o novo ocupante do trono.<\/p>\n\n\n\n<p>No Interzonal de 1958, Fischer terminou em quinto lugar, o que o decepcionou, mas lhe rendeu o t\u00edtulo de Grande Mestre \u2014 foi o mais jovem a conquistar a faixa-preta do xadrez na \u00e9poca \u2014 e uma vaga no Torneio de Candidatos, no qual foi eliminado. Em 1962, o mesmo se repetiu: ele teve uma boa coloca\u00e7\u00e3o no Interzonal e avan\u00e7ou para o Torneio de Candidatos, sem conseguir vencer este \u00faltimo e poder desafiar o campe\u00e3o mundial. Bobby acusou os sovi\u00e9ticos de aproveitar o formato \u201ctodos-contra-todos\u201d da competi\u00e7\u00e3o para manipul\u00e1-la, combinando resultados de partidas para garantir que, ao final, sempre um \u201ccamarada\u201d tivesse mais pontos do que os demais participantes e vencesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa raz\u00e3o, Fischer decidiu boicotar as pr\u00f3ximas disputas pelo t\u00edtulo mundial, e s\u00f3 mudou de ideia na d\u00e9cada seguinte (o que ele fez nesse meio tempo? Pouco se sabe). Em 1970, Pal Benko, o ent\u00e3o campe\u00e3o americano, cedeu sua vaga no Interzonal de Palma de Mallorca para Fischer, que conquistou o primeiro lugar e se classificou para o Torneio de Candidatos de 1971.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas quartas de final (essa edi\u00e7\u00e3o do torneio j\u00e1 estava no formato mata-mata, em parte para evitar as trapa\u00e7as denunciadas por Bobby), Fischer fez 6 a 0 contra Mark Taimanov; na semifinal, fez 6 a 0 contra Bent Larsen; e, na final, fez 6\u00bd a 2\u00bd contra Tigran Petrosian. Ap\u00f3s esse rendimento devastador, ele estava apto a jogar contra o ent\u00e3o campe\u00e3o mundial, o russo Boris Spassky.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images.chesscomfiles.com\/proxy\/rafaelleitao.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/spassky1\/https\/2b49ab64f7.jpg\" alt=\"Boris Spassky e a Trag\u00e9dia de Riga 1958 | Rafael Leit\u00e3o\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Boris Spassky<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Foi o ponto culminante da rivalidade entre Estados Unidos e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica no xadrez. Enquanto o mundo aguardava ansiosamente a abertura do evento, nos bastidores, por mais de uma vez ele quase foi cancelado. O principal motivo foi a animosidade acerca do local de realiza\u00e7\u00e3o do match. V\u00e1rias cidades se voluntariaram para sedi\u00e1-lo; ap\u00f3s negocia\u00e7\u00f5es, a Federa\u00e7\u00e3o de Xadrez dos EUA, representada pelo coronel Ed Edmondson, concordou em as partidas se dividirem entre Belgrado (na Iugosl\u00e1via), que tinha oferecido o maior pr\u00eamio e, por esse motivo, era a op\u00e7\u00e3o preferida de Fischer; e Reiquiavique (na Isl\u00e2ndia), que tinha oferecido um pr\u00eamio menor, mas era a op\u00e7\u00e3o preferida de Spassky \u2014 saiba daqui a pouco o porqu\u00ea.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/9efbe56b5f.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-915\" width=\"413\" height=\"483\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ed Edmondson, coronel da For\u00e7a A\u00e9rea americana e presidente da Federa\u00e7\u00e3o dos EUA. Ele tinha a miss\u00e3o de colocar um americano no trono do xadrez, e acreditava em Fischer.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O pagamento do pr\u00eamio tamb\u00e9m seria dividido entre as duas cidades, e ficou estipulado em 138 mil d\u00f3lares, a m\u00e9dia dos valores oferecidos por Belgrado (US$ 150 mil) e por Reiquiavique (US$ 125 mil).<\/p>\n\n\n\n<p>Parecia que as condi\u00e7\u00f5es do confronto tinham se resolvido. Por\u00e9m, ao tomar conhecimento do acordo assinado pela Federa\u00e7\u00e3o dos EUA, Fischer ficou furioso, se manifestou dizendo que n\u00e3o jogaria na Isl\u00e2ndia e exigiu cuidar pessoalmente das futuras negocia\u00e7\u00f5es relacionadas ao Campeonato Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Os iugoslavos, ao saberem da recusa de Fischer, entraram em p\u00e2nico, pois&nbsp; j\u00e1 tinham investido enormemente no evento e esperavam recuperar o dinheiro com a venda dos ingressos. Para n\u00e3o ficarem no preju\u00edzo, eles exigiram um dep\u00f3sito da Federa\u00e7\u00e3o de Xadrez dos EUA como garantia para caso o jogador n\u00e3o aparecesse. O dep\u00f3sito n\u00e3o foi realizado, fazendo com que os iugoslavos paralisassem os preparativos para o Campeonato Mundial. Quanto aos islandeses, estes ignoraram a declara\u00e7\u00e3o de Bobby e se impuseram, exigindo que metade do match acontecesse l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente da Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Xadrez (FIDE), Max Euwe, respondeu a Fischer com um ultimato: ou ele aceitava os termos (jogar parte do match na Iugosl\u00e1via e o restante na Isl\u00e2ndia) at\u00e9 uma determinada data, ou abria m\u00e3o de seu direito como desafiante do t\u00edtulo mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Fischer fez foi o que qualquer celebridade faria: jogou a situa\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os de seu advogado. Este, para ganhar tempo, emitiu uma nota tranquilizadora, declarando que seu cliente estava pronto, desejoso e esperando para jogar. Mas isso n\u00e3o era o que Euwe tinha exigido e, quando o prazo para Fischer aceitar os termos expirou, os sovi\u00e9ticos pressionaram para que o presidente da FIDE cumprisse sua amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o que a Federa\u00e7\u00e3o de Xadrez da Isl\u00e2ndia teve uma ideia: aproveitou a hesita\u00e7\u00e3o dos iugoslavos para se oferecer como abrigo para o match inteiro. Tudo continuaria perfeitamente: Fischer e Spassky compareceriam em Reiquiavique, jogariam suas partidas, e, ao final, a cidade pagaria o pr\u00eamio de US$125 mil, a ser repartido entre o campe\u00e3o (5\/8) e o vice-campe\u00e3o (3\/8).<\/p>\n\n\n\n<p>Euwe deu uma \u00faltima chance para Fischer aceitar a proposta, e este finalmente concordou. Ou seja, no fim da hist\u00f3ria, a teimosia do norte-americano serviu apenas para diminuir o valor do pr\u00eamio, e ele teve de aceitar jogar a totalidade das partidas onde n\u00e3o queria.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"432\" height=\"412\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/phpqMp6Zt.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-917\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/phpqMp6Zt.png 432w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/phpqMp6Zt-300x286.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 432px) 100vw, 432px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A Isl\u00e2ndia em destaque no globo. O local tinha um simbolismo importante, estando situada a meio caminho entre as duas superpot\u00eancias da Guerra Fria.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Com a sede definida, a abertura do match ficou marcada para junho de 1972. Spassky, que nasceu em Leningrado, numa latitude pr\u00f3xima a de Reiquiavique, j\u00e1 estava acostumado \u00e0s temperaturas baixas o ano todo e aos dias com claridade prolongada no ver\u00e3o, que vai de junho a agosto no Hemisf\u00e9rio Norte. Ele chegou com anteced\u00eancia \u00e0 cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a Fischer, o dia da abertura ficava cada vez mais pr\u00f3ximo, e nenhum sinal dele. O motivo: uma nova disputa tinha surgido, novamente por causa de dinheiro. O dono de uma emissora de TV norte-americana havia comprado os direitos de transmiss\u00e3o das partidas. Fischer alegou que nunca tinha autorizado a exibi\u00e7\u00e3o de sua imagem na televis\u00e3o e queria uma fatia do valor arrecadado com a venda dos direitos.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/1063c42226.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-918\" width=\"392\" height=\"535\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">De acordo com um jornalista que cobria o Campeonato Mundial de 1972 para o Sunday Times: &#8220;Bobby \u00e9 um g\u00eanio, mas como propagandista do mundo livre \u00e9 um tanto contraproducente&#8221;.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O dia da cerim\u00f4nia de abertura chegou, sem a presen\u00e7a de Bobby. A delega\u00e7\u00e3o russa pressionou Spassky a exigir a desqualifica\u00e7\u00e3o do americano, mas o russo negou. Ele realmente queria que o match acontecesse.<\/p>\n\n\n\n<p>A embaixada americana foi acionada e enviou um telegrama a Washington, advertindo que o n\u00e3o comparecimento de Fischer arruinaria a imagem dos Estados Unidos na Isl\u00e2ndia, um importante ponto estrat\u00e9gico. O assunto chegou ao conhecimento do secret\u00e1rio de estado americano, Henry Kissinger, que telefonou para Fischer e gastou horas o adulando e repetindo que a Am\u00e9rica precisava dele. Mas n\u00e3o conseguiu convenc\u00ea-lo a embarcar no avi\u00e3o rumo a Reiquiavique, e nunca conseguiria com o discurso que fez.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que Bobby tinha uma personalidade misantr\u00f3pica. Com o passar dos anos, seu \u00f3dio pelos Estados Unidos cresceu e ficou do mesmo tamanho que seu \u00f3dio pelo socialismo. Em 2001, ap\u00f3s o ato terrorista de 11 de setembro, ele concedeu uma entrevista a uma esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio, aplaudindo o ataque sofrido pelas torres g\u00eameas. J\u00e1 em 1972, a \u00fanica coisa que o movia era o xadrez e tudo o que esse esporte podia dar. N\u00e3o havia sentimento patri\u00f3tico nele. Como Kissinger n\u00e3o lhe ofereceu recompensa financeira, n\u00e3o houve acordo.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, um ousado magnata brit\u00e2nico, Jim Slater, quis se promover entrando no caso. \u201cQuero tirar o problema do dinheiro da frente de Fischer e ver se ele tem alguma outra quest\u00e3o\u201d, disse o milion\u00e1rio. E fez uma doa\u00e7\u00e3o dobrando o pr\u00eamio para 250 mil d\u00f3lares. \u201cSe ele n\u00e3o est\u00e1 com medo de Spassky, ent\u00e3o eu eliminei o elemento do dinheiro\u201d, concluiu.<\/p>\n\n\n\n<p>A doa\u00e7\u00e3o de Slater persuadiu Fischer a pegar um voo para Reiquiavique. Ele ainda conseguiu chegar no local antes da data da primeira partida, mas, assim que chegou, foi dormir e perdeu o sorteio para decidir quem come\u00e7aria com as brancas e quem com as pretas, sendo substitu\u00eddo por seu auxiliar.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo de Fischer em 1972 era William Lombardy, amigo feito em torneios nos Estados Unidos, Grande Mestre e sacerdote cat\u00f3lico romano, cuja participa\u00e7\u00e3o no match foi explorada pela m\u00eddia como uma met\u00e1fora do Ocidente crist\u00e3o versus o Comunismo ateu. Quem n\u00e3o gostou de ver o padre no sorteio foi Spassky, que estava sofrendo press\u00e3o de seus superiores para reivindicar vit\u00f3ria diante da deseleg\u00e2ncia de seu advers\u00e1rio. No entanto, o russo continuava querendo jogar contra o&nbsp; desafiante norte-americano.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images.chesscomfiles.com\/proxy\/encrypted-tbn0.gstatic.com\/images?q=tbn:ANd9GcRZuSSeHrcx81--jEPeTyiryhgrlbXQZJvN4Q&amp;s\/https\/5052bbf52e\" alt=\"The Life and Sad Endgame of Bill Lombardy | ChessBase\"\/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images.chesscomfiles.com\/proxy\/en.chessbase.com\/Portals\/All\/2017\/_eng\/ff\/lombardy03-fischer\/https\/faa678af5d.jpg\" alt=\"The Life and Sad Endgame of Bill Lombardy | ChessBase\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Lombardy jogando enquanto Fischer assiste.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Diante da fraqueza de Spassky, Fischer continuou impondo sua vontade e fazendo exig\u00eancias. Antes da primeira partida, ele j\u00e1 havia for\u00e7ado os organizadores a trocar sua cadeira, o tabuleiro, a ilumina\u00e7\u00e3o, a mesa de jogo e muito mais. Tamb\u00e9m chegou atrasado \u00e0 primeira partida, a qual acabou perdendo. Fischer responsabilizou as c\u00e2meras de TV pela derrota, alegando estas terem tirado sua concentra\u00e7\u00e3o, e recusou-se a continuar jogando a menos que elas fossem removidas. O dono da emissora que comprara os direitos de transmiss\u00e3o do match protestou. As c\u00e2meras foram escondidas, mas continuaram, de modo que Fischer n\u00e3o compareceu&nbsp; ao segundo jogo. As c\u00e2meras foram ent\u00e3o retiradas totalmente, sem que o norte-americano aparecesse, e o \u00e1rbitro n\u00e3o teve rem\u00e9dio a n\u00e3o ser declarar sua derrota na segunda partida.<\/p>\n\n\n\n<p>Provavelmente, Fischer pretendia usar sua desvantagem de dois pontos acumulada logo no in\u00edcio do match como um gambito psicol\u00f3gico contra Spassky. Essa confian\u00e7a do americano em si mesmo fez com que o russo desenvolvesse um complexo de inferioridade que pode o ter sabotado nos pr\u00f3ximos jogos.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da terceira partida, Fischer fez mais uma exig\u00eancia, a de que ele e Spassky jogassem numa pequena sala, longe dos espectadores. Os islandeses se queixaram, pois j\u00e1 tinham vendido ingressos antecipados, mas Spassky, sem consultar sua equipe, imediatamente concordou. Foi uma concess\u00e3o fatal: Kasparov, comentando esse epis\u00f3dio, disse que Fischer \u201ccome\u00e7ou a ditar as condi\u00e7\u00f5es fora do tabuleiro e depois tamb\u00e9m nele\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A mente de Fischer, por\u00e9m, n\u00e3o estava menos tumultuada do que a de seu advers\u00e1rio. Logo no in\u00edcio do terceiro jogo, o americano circulou pela sala em busca de c\u00e2meras escondidas. Spassky protestou. O \u00e1rbitro teve de quebrar as regras, parando o rel\u00f3gio de Spassky para acalmar os jogadores e convenc\u00ea-los a voltar aos assentos. Com o emocional mais fragilizado entre os dois, Spassky perdeu a partida.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse ponto, Fischer dominou o match. A equipe de Spassky devolveu as estranhas obsess\u00f5es de Fischer na mesma moeda, colocando os americanos sob suspeita. Os sovi\u00e9ticos levantaram hip\u00f3teses como hipnose, telepatia, manipula\u00e7\u00e3o da comida e espionagem das an\u00e1lises para prejudicar Spassky. Foram tirados raios-X da cadeira importada de Fischer e das l\u00e2mpadas da sala de jogo, mas nada de mais foi encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>O match prosseguiu e, ao final, Fischer perdeu apenas mais uma partida, vencendo com um placar de 12\u00bd a 8\u00bd e sangrando-se campe\u00e3o mundial de xadrez. Spassky, com a derrota, sofreu san\u00e7\u00f5es do governo sovi\u00e9tico, mas escapou de consequ\u00eancias mais graves obtendo a cidadania francesa e mudando-se para a Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a Fischer, a chegada do t\u00e3o cobi\u00e7ado triunfo sobre a m\u00e1quina sovi\u00e9tica fez o xadrez competitivo perder sentido para ele. A estrela americana negou jogar contra o desafiante Anatoly Karpov, alegando principalmente desentendimentos com o formato do campeonato mundial, definido pela FIDE. Ele se tornou uma figura reclusa e discreta. S\u00f3 vinha \u00e0 tona para destilar sua misantropia na m\u00eddia, com declara\u00e7\u00f5es temer\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1992, houve um rematch entre Fischer e Spassky, com palco na S\u00e9rvia de um dos \u00faltimos ditadores sovi\u00e9ticos, Slobodan Milo\u0161evi\u0107. O confronto foi novamente vencido pelo americano, mas lhe custou uma acusa\u00e7\u00e3o de violar san\u00e7\u00f5es dos EUA contra a Iugosl\u00e1via (na \u00e9poca, a S\u00e9rvia fazia parte da Iugosl\u00e1via). Fischer fugiu, indo parar no Jap\u00e3o, onde foi detido por estar com um passaporte vencido. Finalmente, em 2005, a Isl\u00e2ndia lhe ofereceu asilo. Ele morreu l\u00e1 em 2008. \u220e<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista ingl\u00eas Daniel Johnson \u00e9 o autor do excelente livro&nbsp;Rei Branco e Rainha Vermelha, que explica a dimens\u00e3o pol\u00edtica que o xadrez ganhou durante a Guerra Fria. O motivo \u00e9 f\u00e1cil de se compreender: os Estados Unidos queriam mostrar superioridade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e vice-versa. 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