{"id":855,"date":"2024-02-12T10:40:20","date_gmt":"2024-02-12T13:40:20","guid":{"rendered":"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/?p=855"},"modified":"2024-03-02T08:43:55","modified_gmt":"2024-03-02T11:43:55","slug":"o-xadrez-na-idade-media","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/index.php\/2024\/02\/12\/o-xadrez-na-idade-media\/","title":{"rendered":"O Xadrez na Idade M\u00e9dia"},"content":{"rendered":"\n<p>Luiz Jean Lauand \u00e9 um matem\u00e1tico e professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP. Ele \u00e9 o autor do livro \u201c<em>O Xadrez na Idade M\u00e9dia<\/em>\u201d, da editora Elos, com 121 p\u00e1ginas, publicado em 1988.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/php3hDcRV.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-856\" width=\"388\" height=\"525\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/php3hDcRV.jpg 738w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/php3hDcRV-221x300.jpg 221w\" sizes=\"auto, (max-width: 388px) 100vw, 388px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">A obra, conforme assinalado pelo autor na Introdu\u00e7\u00e3o, tem como objetivo apresentar a origem do xadrez no Ocidente. Inicialmente, a \u00cdndia foi o ber\u00e7o do ancestral mais antigo do xadrez, o chaturanga, palavra do s\u00e2nscrito que significa \u201cquatro elementos\u201d, porque as pe\u00e7as desse jogo de tabuleiro eram inspiradas nos quatro componentes do ex\u00e9rcito indiano da \u00e9poca: infantaria, cavalos, elefantes e carros de guerra. O chaturanga foi descoberto pelos persas, que lhe deram o nome de shatranj, e em seguida pelos \u00e1rabes, quando estes conquistaram a P\u00e9rsia (naquela altura, correspondente ao Imp\u00e9rio Sass\u00e2nida, e, atualmente, correspondente ao Ir\u00e3). Foi por interm\u00e9dio dos \u00e1rabes que o jogo chegou na Europa e, l\u00e1, com o tempo, as pe\u00e7as foram adaptadas para representar a sociedade medieval.<\/p>\n\n\n\n<p>Em particular, a regi\u00e3o onde hoje fica a Espanha, que por s\u00e9culos teve parte de seu territ\u00f3rio ocupada por mu\u00e7ulmanos vindos do norte da \u00c1frica (os mouros), destacou-se no processo de assimila\u00e7\u00e3o do shatranj. O historiador Richard Eales, em <em>Chess: The History of a Game<\/em>,&nbsp; citado por Lauand, escreve: \u201c[&#8230;] o jogo entrou pela Espanha como parte do interc\u00e2mbio cultural geral entre mu\u00e7ulmanos e crist\u00e3os na pen\u00ednsula [&#8230;]\u201d, e estima o s\u00e9culo X como \u201cdata\u201d desse acontecimento. Como provas a favor dessa narrativa, Lauand menciona o <em>Libro del Acedrex<\/em>, escrito em 1283 pelo rei de Castela e Le\u00e3o Afonso X, o S\u00e1bio, que chama de Alfil (com origem nas palavras persa e \u00e1rabe para \u201celefante\u201d) a pe\u00e7a que n\u00f3s chamamos de Bispo; de Alferza (das palavras persa e \u00e1rabe para \u201cvizir\u201d) a pe\u00e7a que n\u00f3s chamamos de Dama; e de Roque (das palavras persa e \u00e1rabe para \u201ctorre\u201d) a pe\u00e7a que n\u00f3s chamamos de Torre.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, v\u00e1rias palavras presentes no <em>Libro del Acedrex<\/em> \u2014 que, em sua \u00e9poca, foi o principal tratado europeu sobre o jogo \u2014 tem origem em palavras semelhantes dos idiomas persa e \u00e1rabe. Isso est\u00e1 de acordo com a hip\u00f3tese de que o xadrez ocidental \u00e9 uma nova vers\u00e3o de um jogo mais antigo que era praticado pelos \u00e1rabes e, antes destes, pelos sass\u00e2nidas. E Lauand afirma que o que aconteceu com o xadrez na Europa \u00e9 o que sempre acontece em qualquer lugar quando uma nova realidade cultural, um jogo por exemplo, \u00e9 introduzida: inicialmente, o vocabul\u00e1rio \u00e9 preservado e, mesmo depois de as palavras serem adaptadas para o idioma local, alguns tra\u00e7os do idioma original sobrevivem.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images.chesscomfiles.com\/uploads\/v1\/images_users\/tiny_mce\/estdx\/phpgpboYM.png\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o do <em>Libro del Acedrex<\/em> com um judeu \u00e0 esquerda e um mu\u00e7ulmano \u00e0 direita<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Lauand d\u00e1, como exemplo, o caso da introdu\u00e7\u00e3o do futebol (do ingl\u00eas football) no Brasil. At\u00e9 hoje falamos p\u00eanalti (de penalty) para nos referir \u00e0 penalidade m\u00e1xima do esporte. E, antigamente, fal\u00e1vamos corner, goalkeeper e offside para escanteio, goleiro e impedimento, respectivamente. Algumas palavras tiveram sua escrita aportuguesada, como futebol e p\u00eanalti, e outras foram traduzidas, mas ainda restam vest\u00edgios do idioma original em nosso idioma. Da mesma maneira, os \u00e1rabes herdaram v\u00e1rias palavras dos persas, e os europeus, dos \u00e1rabes.<\/p>\n\n\n\n<p>A Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica foi, ent\u00e3o, uma porta de entrada para o shatranj na Europa. Em castelhano, o nome \u201cal-shatranj\u201d (o \u201cal\u201d na frente equivale ao artigo definido \u201co\u201d em portugu\u00eas) foi adaptado para acedrex, evoluindo, com o tempo, para o atual ajedrez. O fato de um rei, Afonso X, ter se dedicado a escrever um livro sobre o assunto resume a import\u00e2ncia dada a ele pela sociedade da \u00e9poca. O historiador Harold Murray, em <em>A History of Chess<\/em>, citado por Lauand, afirma que, na Idade M\u00e9dia, o xadrez atingiu uma popularidade nunca igualada no futuro. Embora tamb\u00e9m tenha sofrido persegui\u00e7\u00e3o \u2014 o caso mais famoso foi o da proibi\u00e7\u00e3o do jogo por Lu\u00eds IX, o rei cruzado da Fran\u00e7a \u2014, acabou ganhando respeito e sendo considerado parte de uma educa\u00e7\u00e3o integral, especialmente entre a nobreza.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante destacar que, nos dias de Afonso X, o xadrez ainda diferia do que \u00e9 praticado hoje em dia. As diferen\u00e7as, que s\u00e3o principalmente entre a antiga Alferza e a atual Dama e entre os antigos Alfiles e os atuais Bispos, s\u00e3o apresentadas no Cap\u00edtulo 2 do livro de Jean Lauand, e no Cap\u00edtulo 3 s\u00e3o fornecidos exemplos de problemas e de partidas da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>O Cap\u00edtulo 4 discorre sobre a literatura enxadr\u00edstica medieval, que n\u00e3o se limitou ao texto afonsino. Murray apud Lauand classifica essas obras em: 1) obras did\u00e1ticas, 2) obras morais e 3) cole\u00e7\u00f5es de problemas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as obras did\u00e1ticas, dedicadas ao ensino do xadrez (geralmente de maneira n\u00e3o t\u00e3o sistem\u00e1tica, pois os autores se preocupavam mais com a qualidade liter\u00e1ria do que com a tecnicidade de seus textos), destaca-se o Poema de Deventer, cujo manuscrito mais antigo que se conhece \u00e9 do s\u00e9culo XIII, de autoria desconhecida.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as obras morais, nas quais o xadrez \u00e9 utilizado como met\u00e1fora para transmitir li\u00e7\u00f5es de moralidade, destaca-se a obra <em>Moralitas de Scaccario<\/em>, tamb\u00e9m de autoria desconhecida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, entre as cole\u00e7\u00f5es de problemas, destaca-se a obra de Afonso X, o <em>Libro del Acedrex<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>No sexto e \u00faltimo cap\u00edtulo do livro de Jean Lauand s\u00e3o apresentados exemplos de problemas selecionados da obra de Dom Afonso.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra de Lauand \u00e9 um livro muito interessante para se conhecer o desenvolvimento inicial do xadrez a partir dos jogos anteriores, al\u00e9m de ser uma oportunidade para expandir nossa cultura acerca do medievo. <strong>\u220e<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Jean Lauand \u00e9 um matem\u00e1tico e professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP. 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