{"id":521,"date":"2023-07-11T15:00:40","date_gmt":"2023-07-11T18:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/?p=521"},"modified":"2023-12-09T11:17:52","modified_gmt":"2023-12-09T14:17:52","slug":"antiguidade-classica-grecia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/index.php\/2023\/07\/11\/antiguidade-classica-grecia\/","title":{"rendered":"Antiguidade Cl\u00e1ssica: Gr\u00e9cia"},"content":{"rendered":"\n<p>A hist\u00f3ria da Gr\u00e9cia Antiga \u00e9 dividida nos per\u00edodos Pr\u00e9-Hom\u00e9rico, Hom\u00e9rico, Arcaico e Cl\u00e1ssico. No Per\u00edodo <strong>Pr\u00e9-Hom\u00e9rico<\/strong>, antes do estabelecimento da civiliza\u00e7\u00e3o grega propriamente dita, houve o povoamento da ilha de Creta e da Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica por povos indo-europeus, tamb\u00e9m chamados de arianos, e a forma\u00e7\u00e3o das civiliza\u00e7\u00f5es cretense e mic\u00eanica. <\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros tempos da civiliza\u00e7\u00e3o cretense s\u00e3o narrados pela lenda de Teseu e do Minotauro. A lenda diz que o rei da ilha, Minos, vivia uma \u00e9poca de crise quando pediu que os deuses lhe enviassem uma oferenda para ser sacrificada em prol de sua soberania. Atendendo a prece, Poseidon fez com que um touro sa\u00edsse do mar; por\u00e9m, o rei acabou encantado com a beleza do animal e desistiu de sacrific\u00e1-lo. Decepcionado com a quebra do acordo, Poseidon decidiu punir Minos, fazendo com que sua esposa, Pas\u00edfae, se apaixonasse pelo touro e dele ficasse gr\u00e1vida. O produto desse cruzamento bestial foi um monstro, metade homem, metade touro \u2014 o Minotauro. Ao saber disso, Minos consultou o or\u00e1culo de Delfos, sendo instru\u00eddo a construir um labirinto no qual a fera foi aprisionada.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, um dos filhos de Minos foi morto, ap\u00f3s suscitar a inveja do rei da cidade de Atenas, Egeu, com seu desempenho nos jogos panatenaicos. Minos se vingou obrigando os atenienses a, anualmente, fornecer sete mo\u00e7os e sete mo\u00e7as para alimentar o Minotauro. Tal opress\u00e3o chegou ao fim quando o filho de Egeu, chamado Teseu, foi mandado a Creta para enfrentar o monstro. Teseu partiu em um navio com velas negras, deixando acertado com o pai que, caso sobrevivesse, voltaria no mesmo navio, s\u00f3 que com velas brancas. Chegando em Creta, Teseu conheceu e ganhou o amor de uma filha de Minos, Ariadne, e junto a ela se dirigiu ao labirinto do Minotauro. L\u00e1, Teseu fez Ariadne segurar um novelo de l\u00e3 e entrou no labirinto desenrolando o novelo. O fio de l\u00e3 ajudou Teseu a sair do labirinto depois de matar o Minotauro. Em seguida, Teseu abandonou Ariadne, e ela se casou com o deus Dion\u00edsio. Na volta para Atenas, Teseu, muito animado por seu sucesso, esqueceu de trocar as velas negras do navio em que estava, fazendo com que seu pai pensasse que tinha perdido o filho e, inconsol\u00e1vel, se lan\u00e7asse no mar \u2014 desde ent\u00e3o, chamado de Mar Egeu. Teseu sucedeu seu pai no trono e fortaleceu Atenas, firmando-a como uma das principais cidades da Gr\u00e9cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Lendas \u00e0 parte, a civiliza\u00e7\u00e3o cretense, ou min\u00f3ica, que habitou a ilha de Creta, foi a primeira civiliza\u00e7\u00e3o europeia (com in\u00edcio em aproximadamente 2000 a.C.) e a primeira do mundo a n\u00e3o se desenvolver na plan\u00edcie de inunda\u00e7\u00e3o de um rio. Os cretenses plantavam azeitona, trigo e uva, criavam carneiros nos pastos das montanhas e pescavam. Grande parte do que produziam era exportada para o Egito, S\u00edria e Chipre. Creta dominou o com\u00e9rcio mar\u00edtimo no Mar Mediterr\u00e2neo e estendeu sua influ\u00eancia \u00e0 Gr\u00e9cia Continental. Com as riquezas obtidas, foram erguidos grandes pal\u00e1cios reais decorados com afrescos \u2014 existem ru\u00ednas de quatro deles, o maior em <strong>Cnossos<\/strong>. Esses pal\u00e1cios n\u00e3o eram cercados por muralhas, diferentemente do que acontecia no continente, provavelmente porque os cretenses n\u00e3o se preocupavam com invas\u00f5es. Al\u00e9m das constru\u00e7\u00f5es, eles deixaram cer\u00e2micas finas e utens\u00edlios de ouro e bronze. Mas o principal produto da criatividade cretense foi a elabora\u00e7\u00e3o de uma forma de escrita, chamada pelos linguistas de linear A, ainda n\u00e3o decifrada.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-9.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-548\" width=\"577\" height=\"385\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-9.png 800w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-9-300x200.png 300w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-9-768x512.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 577px) 100vw, 577px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ru\u00ednas do Pal\u00e1cio de Cnossos<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas religiosas, provavelmente os minoicos cultuavam v\u00e1rios deuses, mas, devido \u00e0 escassez de vest\u00edgios, n\u00e3o se sabe muito acerca do pante\u00e3o deles. Acredita-se que eles cultuavam a &#8220;Grande M\u00e3e&#8221;, deusa da fertilidade, o que sugere uma organiza\u00e7\u00e3o matriarcal da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s sobreviver a inc\u00eandios, provavelmente causados por guerras ou terremotos, e intemp\u00e9ries naturais (incluindo as consequ\u00eancias de uma enorme erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica na ilha vizinha de Thera, atual Santorini), finalmente a civiliza\u00e7\u00e3o min\u00f3ica foi conquistada, em 1450 a.C., dando lugar aos mic\u00eanicos. Esse povo teve origem com os invasores aqueus, que se estabeleceram inicialmente na Gr\u00e9cia continental e come\u00e7aram a construir pequenas cidades fortificadas \u2014 a mais importante delas era a de Micenas. Tais cidades eram cercadas por s\u00f3lidos muros defensivos e abrigavam pal\u00e1cios onde residiam o rei e a aristocracia guerreira que possu\u00eda a terra e dominava camponeses e escravos. Os aqueus foram seguidos pelos j\u00f4nios, e\u00f3lios e d\u00f3rios. Juntos, esses quatro povos constituem os antepassados dos antigos gregos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os mic\u00eanicos ocuparam Creta, herdaram elementos da cultura minoica, principalmente a escrita, as artes e a arquitetura, e deram continuidade ao com\u00e9rcio mar\u00edtimo dos minoicos, indo at\u00e9 a Sic\u00edlia e a It\u00e1lia. Tamb\u00e9m anteciparam o processo de coloniza\u00e7\u00e3o grega estabelecendo algumas col\u00f4nias para facilitar o com\u00e9rcio.<\/p>\n\n\n\n<p>A escrita herdada dos cretenses pelos mic\u00eanicos evoluiu para um ancestral do grego (Linear B), que os estudiosos conseguiram decifrar, revelando que os mic\u00eanicos j\u00e1 cultuavam muitos dos deuses gregos tradicionais, incluindo Poseidon, Apolo e Zeus. As divindades gregas n\u00e3o eram consideradas imaculadas e perfeitas, mas eram um reflexo da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, apresentando qualidades e defeitos semelhantes aos dos humanos, com a diferen\u00e7a de que eram infinitamente mais poderosas e imortais. Mais tarde, surgiu a cren\u00e7a de que doze deuses (os deuses ol\u00edmpicos) habitavam o monte Olimpo, um lugar real e pr\u00f3ximo aos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como qualquer mitologia, o conjunto de cren\u00e7as dos gregos antigos servia para explicar a origem do mundo, do ser humano e os fen\u00f4menos da vida e da natureza. De acordo com a cosmogonia grega, o mundo teve in\u00edcio com o casal Urano e Gaia. Urano (o C\u00e9u) permanecia unido a Gaia (a Terra). Dessa uni\u00e3o nasceram os tit\u00e3s, que Gaia tinha dificuldade em dar \u00e0 luz. Infeliz com os filhos aprisionados, Gaia ajudou um deles, Cronos, a castrar o pai. Com isso, o C\u00e9u se separou da Terra, uma met\u00e1fora que representa a origem do mundo. Cronos passou a reinar, mas, com medo de perder o poder, devorava os filhos que tinha com a tit\u00e3 Reia. Um deles, Zeus, escapou desse destino e derrotou Cronos em uma grande batalha, dando in\u00edcio \u00e0 era dos deuses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Zeus<\/strong> (nome romano: J\u00fapiter) \u00e9 o deus supremo da mitologia grega. Governante do universo, utiliza os rel\u00e2mpagos fabricados pelos ciclopes (gigantes ferreiros de um olho s\u00f3). Entre seus irm\u00e3os, <strong>Hades<\/strong> (Plut\u00e3o) \u00e9 o deus do mundo subterr\u00e2neo, onde as almas dos mortos chegam ap\u00f3s atravessar o rio Estige no barco de Caronte. Os bons s\u00e3o mandados para uma esp\u00e9cie de para\u00edso verde e florido chamado Campos El\u00edseos, enquanto os maus v\u00e3o para uma esp\u00e9cie de inferno profundo, \u00famido e frio, chamado T\u00e1rtaro, cuja porta \u00e9 guardada pelo c\u00e3o de tr\u00eas cabe\u00e7as C\u00e9rbero. Mais velho do que Zeus e Hades,<strong> Poseidon<\/strong> (Netuno) \u00e9 o deus do mar, respons\u00e1vel por tempestades e terremotos. <strong>Dem\u00e9ter<\/strong> (Ceres) \u00e9 a deusa da colheita e <strong>Dion\u00edsio<\/strong> (Baco) \u00e9 o deus do vinho, das festas e do teatro.<\/p>\n\n\n\n<p>Zeus teve v\u00e1rios relacionamentos com deusas e humanas. Com sua primeira esposa, M\u00e9tis, teve <strong>Atena <\/strong>(Minerva), deusa da sabedoria. M\u00e9tis \u00e9 v\u00edtima dos ci\u00fames de Hera, terceira esposa de Zeus, divindade do matrim\u00f4nio e do parto que costuma ter um comportamento vingativo para com as demais esposas de seu marido. Entre os filhos de Zeus e Hera, <strong>Ares<\/strong> (Marte) \u00e9 o deus da guerra e <strong>Hefesto<\/strong> (Vulcano) \u00e9 o deus do fogo e da forja. A esposa de Hefesto \u00e9 <strong>Afrodite <\/strong>(V\u00eanus), deusa do amor e da fertilidade. De acordo com Hes\u00edodo, Afrodite nasceu das espumas que surgiram quando os \u00f3rg\u00e3os genitais de Urano ca\u00edram na \u00e1gua do mar. Para Her\u00f3doto, ela na verdade era filha de Zeus com Dione, deusa das ninfas \u2014 estas eram divindades secund\u00e1rias, habitantes dos campos, florestas e mares, associadas \u00e0 fertilidade. Afrodite teve casos extraconjugais, inclusive com Ares, com quem teve Eros.<\/p>\n\n\n\n<p>Fruto do relacionamento entre Zeus e uma tit\u00e3, <strong>Apolo<\/strong> (Febo) \u00e9 o deus do Sol, das artes, da medicina e da m\u00fasica. Sua irm\u00e3 g\u00eamea, <strong>\u00c1rtemis <\/strong>(Diana), \u00e9 a deusa da ca\u00e7a. Com a deusa Maia, Zeus teve <strong>Hermes <\/strong>(Merc\u00fario), divindade protetora dos viajantes e mercadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte dessas cren\u00e7as j\u00e1 fazia parte da cultura mic\u00eanica, mas a narrativa completa s\u00f3 foi escrita na obra Teogonia, do poeta Hes\u00edodo, entre os s\u00e9culos VIII e VII a.C.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de sucumbir, os mic\u00eanicos supostamente ainda tiveram grandes conquistas. Segundo algumas narrativas, eles participaram da Guerra de Tr\u00f3ia (na atual Turquia) por volta de 1200 a.C. O motivo foi o rapto de Helena, esposa do rei Menelau de Esparta, por P\u00e1ris, pr\u00edncipe de Tr\u00f3ia. O irm\u00e3o de Menelau era Agamenon, rei de Micenas. Esses acontecimentos foram registrados nos poemas \u00e9picos Il\u00edada e Odisseia. A Il\u00edada aborda os \u00faltimos anos do conflito, mas n\u00e3o fala sobre o famoso epis\u00f3dio em que os gregos deram um grande cavalo de madeira de presente para os troianos, que o aceitaram e o deixaram entrar em sua cidade, e, quando anoiteceu, soldados gregos sa\u00edram do cavalo e atacaram, vencendo a guerra. Essa estrat\u00e9gia \u00e9 mencionada, apenas de passagem, na Odisseia, cujo tema principal \u00e9 a vida do her\u00f3i Ulisses ap\u00f3s a guerra e seu retorno para casa, quando ele descobriu que, durante sua aus\u00eancia, sua esposa, Pen\u00e9lope, havia sido assediada por v\u00e1rios pretendentes, os quais foram mortos como vingan\u00e7a. A Il\u00edada e a Odisseia ainda s\u00e3o muito estudadas por historiadores atualmente, embora n\u00e3o se saiba com precis\u00e3o o que \u00e9 fato e o que \u00e9 fic\u00e7\u00e3o dentro desses poemas. Al\u00e9m disso, embora os gregos acreditasse que esses poemas fossem obra de um \u00fanico e brilhante poeta, chamado Homero, hoje sabe-se que a Il\u00edada e a Odisseia s\u00e3o frutos de uma longa tradi\u00e7\u00e3o oral, mantida viva gra\u00e7as aos aedos, recitadores de poemas viajantes que declamavam os epis\u00f3dios da guerra de Tr\u00f3ia e as aventuras de Ulisses, acompanhados por m\u00fasica. Foi assim que os relatos atravessaram as gera\u00e7\u00f5es, embora tenham sofrido muitas altera\u00e7\u00f5es. S\u00f3 mais tarde, em cerca de 550 a.C., os poemas foram escritos pela primeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer maneira, Micenas viu seu fim chegar em cerca de 1120 a.C., pouco tempo depois da data atribu\u00edda \u00e0 vit\u00f3ria na Guerra de Tr\u00f3ia. A causa da queda \u00e9 desconhecida, mas pode estar associada a invas\u00f5es por povos do Mar Egeu. Essa suposta confedera\u00e7\u00e3o de povos marinheiros invadiu diferentes regi\u00f5es do mundo antigo at\u00e9 ser derrotada pelo fara\u00f3 Rams\u00e9s III.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a destrui\u00e7\u00e3o dos pal\u00e1cios mic\u00eanicos, ocorreu um empobrecimento cultural e a escrita deixou de ser praticada por cerca de 400 anos. Teve in\u00edcio o <strong>Per\u00edodo Hom\u00e9rico<\/strong>, assim chamado porque as principais fontes de informa\u00e7\u00e3o sobre o per\u00edodo s\u00e3o as obras atribu\u00eddas a Homero. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, houve&nbsp; um processo de descentraliza\u00e7\u00e3o do poder, em que o governo baseado na autoridade do rei foi substitu\u00eddo pelos genos \u2014 grupos familiares e unidades produtivas isoladas baseadas na agricultura. As terras f\u00e9rteis eram divididas de acordo com a vontade dos patriarcas, originando uma forma heredit\u00e1ria de aristocracia. Mais tarde, no <strong>Per\u00edodo Arcaico<\/strong>, devido a problemas relacionados \u00e0 falta de terras e de oportunidades, houve uma expans\u00e3o da coloniza\u00e7\u00e3o grega, o que favoreceu indiretamente o surgimento dos primeiros fil\u00f3sofos, pois, a partir do s\u00e9culo VII a.C., a expans\u00e3o do artesanato e do com\u00e9rcio na Gr\u00e9cia levou \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de centros de distribui\u00e7\u00e3o comercial nas col\u00f4nias, aumentando o bem-estar nesses locais. Foi nessas col\u00f4nias onde a filosofia teve in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro motivo para o surgimento da filosofia foi a exist\u00eancia de religi\u00f5es esot\u00e9ricas. Existiam dois tipos de religi\u00e3o na Gr\u00e9cia: as exot\u00e9ricas e as esot\u00e9ricas. As primeiras eram p\u00fablicas, enquanto \u00e0s segundas tinham acesso apenas os iniciados. Uma das religi\u00f5es esot\u00e9ricas era o orfismo, que acreditava na imortalidade da alma (ideia herdada por muitas escolas filos\u00f3ficas posteriores) e que n\u00e3o tinha sacerdotes nem textos sagrados, favorecendo debates internos. Como uma caracter\u00edstica da filosofia \u00e9 o apre\u00e7o pelo debate e pelo interc\u00e2mbio de ideias, a religi\u00e3o \u00f3rfica estimulou o in\u00edcio da filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros fil\u00f3sofos, oriundos da col\u00f4nia grega de Mileto, dedicaram-se \u00e0 busca pela arkh\u00e9, subst\u00e2ncia que daria origem a toda a realidade. Tales, observando que a umidade \u00e9 necess\u00e1ria para toda forma de vida germinar e crescer, que as sementes s\u00e3o \u00famidas, que os alimentos que sustentam a vida s\u00e3o suculentos, e que, por outro lado, as coisas mortas secam, concluiu que a arkh\u00e9 corresponde \u00e0 \u00e1gua.&nbsp; Para ele, a \u00e1gua \u00e9 o princ\u00edpio de tudo o que existe. J\u00e1 para o conterr\u00e2neo de Tales, Anaximandro, a arkh\u00e9 \u00e9 uma subst\u00e2ncia infinita, inef\u00e1vel e incorrupt\u00edvel, que ele chama de \u00e1peiron. As ideias de Anaximandro foram continuadas por seu disc\u00edpulo, Anax\u00edmenes, que reafirmou a natureza ilimitada da arkh\u00e9, mas, diferentemente de Anaximandro, identificou-a com algo concreto, o ar. De acordo com Anax\u00edmenes, o ar, rarefazendo-se, torna-se fogo; condensando-se, torna-se vento, nuvem, \u00e1gua, terra, pedra e assim por diante, dando origem a todas as coisas. A grande mobilidade do ar explicaria as muta\u00e7\u00f5es encontradas na natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Posteriormente, Pit\u00e1goras, da col\u00f4nia de Samos, afirmou o princ\u00edpio de tudo o que existe no n\u00famero e na harmonia. Para Pit\u00e1goras, a mat\u00e9ria \u00e9 formada por m\u00f4nadas, part\u00edculas min\u00fasculas que, reunidas, d\u00e3o forma aos corpos. Isto \u00e9, assim como os n\u00fameros s\u00e3o formados por quantidade e arranjo de unidades, tamb\u00e9m os corpos s\u00e3o formados por quantidade e arranjo de m\u00f4nadas. Pautado nessa ideia, Pit\u00e1goras fundou, em Crotona (no sul da atual It\u00e1lia), uma escola filos\u00f3fica e m\u00edstica, sendo seu primeiro l\u00edder, e cujos disc\u00edpulos ficaram conhecidos como pitag\u00f3ricos. <\/p>\n\n\n\n<p>Pit\u00e1goras e sua escola acreditavam na possibilidade de descrever o Universo matematicamente, por meio de raz\u00f5es entre n\u00fameros, e encontraram muitas express\u00f5es dessa ordena\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica do Cosmos, como os <strong>n\u00fameros triangulares e<\/strong><strong> quadrados<\/strong> , formados por m\u00f4nadas e expressos por f\u00f3rmulas simples; o c\u00e9lebre teorema que hoje leva o nome de Pit\u00e1goras, segundo o qual a hipotenusa \ud835\udc4e e os catetos \ud835\udc4f e \ud835\udc50 de qualquer tri\u00e2ngulo ret\u00e2ngulo satisfazem \ud835\udc4e<sup>2<\/sup>=\ud835\udc4f<sup>2<\/sup>+\ud835\udc50<sup>2<\/sup>; e, na m\u00fasica, eles descobriram as raz\u00f5es que, no monoc\u00f3rdio (instrumento de uma corda s\u00f3), produzem determinadas notas musicais.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-10-743x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-550\" width=\"358\" height=\"492\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-10-743x1024.png 743w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-10-218x300.png 218w\" sizes=\"auto, (max-width: 358px) 100vw, 358px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">N\u00fameros triangulares. Os pontos vermelhos representam m\u00f4nadas <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-11.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-551\" width=\"426\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-11.png 800w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-11-300x208.png 300w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-11-768x533.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 426px) 100vw, 426px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rela\u00e7\u00f5es entre n\u00fameros triangulares, quadrados e oblongos<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Contudo, a f\u00e9 dos pitag\u00f3ricos nos n\u00fameros n\u00e3o durou para sempre. A descoberta da incomensurabilidade entre o lado e a diagonal do quadrado, isto \u00e9, em termos modernos, a exist\u00eancia do irracional \u221a2, f\u00ea-los perceber que nem tudo podia ser expresso por n\u00fameros inteiros ou raz\u00f5es entre eles. Conta-se que o descobridor desse fato, chamado Hipaso de Metaponto, foi assassinado pela irmandade dos pitag\u00f3ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para contornar a dificuldade surgida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00f4nadas, em \u00c9feso (outra col\u00f4nia grega), Her\u00e1clito prop\u00f4s uma resposta original, mudando os rumos da investiga\u00e7\u00e3o. Enquanto, para os fil\u00f3sofos que o precederam, a investiga\u00e7\u00e3o se baseava na exist\u00eancia de um elemento \u00fanico e universal (a arkh\u00e9), para Her\u00e1clito, o aspecto fundamental da realidade \u00e9 a mudan\u00e7a constante sofrida por todas as coisas mediante a a\u00e7\u00e3o do fogo. O mundo heraclitiano \u00e9 explicado pelo devir, pela tens\u00e3o de contr\u00e1rios, que se chocam, originando o movimento dos acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma \u00e9poca, Parm\u00eanides de Eleia, um dissidente da escola pitag\u00f3rica, criticou fortemente a insist\u00eancia dos pitag\u00f3ricos na ideia de m\u00f4nada, e defendeu as ideias de homogeneidade e continuidade. Em seguida, seu disc\u00edpulo Zen\u00e3o de Eleia formulou paradoxos que abalaram de vez a ideia das m\u00f4nadas. O paradoxo da flecha demoliu a possibilidade de existir uma quantidade finita delas num segmento de reta, pois, se fosse assim, a ponta de uma flecha percorrendo esse segmento, ao passar entre duas m\u00f4nadas consecutivas, ficaria im\u00f3vel, donde o movimento seria uma sucess\u00e3o de imobilidades, o que n\u00e3o faz sentido. J\u00e1 o paradoxo de Aquiles e a tartaruga descartou a possibilidade de as m\u00f4nadas em um segmento serem infinitas, pois, nesse caso, sendo dada uma vantagem inicial \u00e0 tartaruga numa corrida contra Aquiles disputada sobre esse segmento, quando Aquiles alcan\u00e7asse a posi\u00e7\u00e3o original da tartaruga, esta teria avan\u00e7ado um pouco; e quando Aquiles alcan\u00e7asse a nova posi\u00e7\u00e3o da tartaruga, novamente esta teria progredido, e o processo continua infinitamente, pois estamos supondo a exist\u00eancia de infinitas m\u00f4nadas no segmento, donde se conclui que Aquiles nunca alcan\u00e7aria a tartaruga, o que vai de encontro com a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os paradoxos de Zen\u00e3o instalaram o horror ao infinito e ao movimento entre os gregos e fizeram com que os n\u00fameros fossem subordinados \u00e0 geometria. A matem\u00e1tica grega se tornou qualitativa e est\u00e1tica. Essa situa\u00e7\u00e3o foi aliviada por Arquimedes, mas s\u00f3 foi totalmente resolvida vinte s\u00e9culos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, a efervesc\u00eancia cultural que estava acontecendo nas col\u00f4nias gregas chegou nas cidades-Estado que se formaram no continente, tamb\u00e9m no Per\u00edodo Arcaico, quando os antigos genos uniram-se em entidades maiores. Nessas cidades-Estado, tamb\u00e9m chamadas de p\u00f3leis (plural de p\u00f3lis), a escravid\u00e3o era a forma de trabalho dominante, respons\u00e1vel por sustentar os aristocratas (entre os quais, principalmente em Atenas, v\u00e1rios fil\u00f3sofos, contr\u00e1rios aos sofistas que ensinavam quem pudesse pagar por isso), mas tamb\u00e9m existiam comerciantes e artes\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas p\u00f3leis ficaram mais famosas: Esparta e Atenas. Esparta era uma p\u00f3lis famosa por seu car\u00e1ter militar. O governo era uma diarquia, composta por dois reis. A popula\u00e7\u00e3o era dividida em estratos. Os <strong>espartanos<\/strong> (ou <strong>esparciatas<\/strong>) descendiam dos primeiros habitantes da cidade (os d\u00f3rios), possu\u00edam terras, detinham poder pol\u00edtico, militar e religioso e eram os \u00fanicos considerados cidad\u00e3os. Vinte e oito espartanos com mais de 60 anos formavam a <strong>Ger\u00fasia<\/strong>, respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o das leis. Espartanos com mais de 30 anos formavam a <strong>\u00c1pela<\/strong>, que elegia membros da Ger\u00fasia. Havia tamb\u00e9m 5 vigilantes, chamados <strong>\u00e9foros<\/strong>, que organizavam reuni\u00f5es da Ger\u00fasia e da \u00c1pela e fiscalizavam a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos cidad\u00e3os, existiam os <strong>periecos<\/strong>, homens livres dedicados ao com\u00e9rcio e ao artesanato, sem direitos pol\u00edticos, e os <strong>hilotas<\/strong>, escravos considerados propriedade estatal que formavam a camada mais numerosa e explorada da sociedade. Eles trabalhavam na agricultura para sustentar toda a popula\u00e7\u00e3o espartana. N\u00e3o raro ocorriam revoltas de hilotas, que eram combatidas por meio das criptias \u2014 exerc\u00edcios de exterm\u00ednio praticados por jovens guerreiros em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sociedade espartana, considerava-se dever das mulheres gerar filhos saud\u00e1veis para serem os pr\u00f3ximos guerreiros. Assim que uma crian\u00e7a nascia, ela era conduzida \u00e0 presen\u00e7a de um grupo de anci\u00e3os para ser examinada. Se julgada saud\u00e1vel, era poupada; se os anci\u00e3os encontrassem alguma defici\u00eancia nela, a crian\u00e7a era sacrificada sendo atirada em um precip\u00edcio. Os meninos saud\u00e1veis eram criados pelas m\u00e3es at\u00e9 completarem 7 anos, quando iam morar em acampamentos do Estado. L\u00e1, a partir dos 12 anos, eram submetidos a uma r\u00edgida educa\u00e7\u00e3o que os preparava para a guerra. Recebiam pouca comida, uma \u00fanica t\u00fanica para vestir e dormiam sobre esteiras no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de Esparta, outra p\u00f3lis famosa da Gr\u00e9cia foi Atenas, o ber\u00e7o da democracia ocidental. Essa cidade foi erguida pelos j\u00f4nios a poucos quil\u00f4metros do mar Egeu e era dotada de portos naturais \u2014 o mais importante deles era o do Pireu \u2014, o que estimulou a navega\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio mar\u00edtimo. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Atenas viveu tens\u00f5es sociais que levaram \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o de diversas formas de governo, como a monarquia, a aristocracia, a tirania, a democracia e a oligarquia.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, Atenas era governada por reis.<strong> <\/strong>De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o, quando os d\u00f3rios, o mesmo povo que deu origem aos espartanos, marcharam contra Atenas, o ent\u00e3o soberano da cidade, chamado Codro, consultou o or\u00e1culo de Delfos e ficou sabendo que o lado cujo rei morresse sairia vitorioso. Ele ent\u00e3o entrou no campo inimigo, foi morto e a profecia se cumpriu com o recuo dos d\u00f3rios. Com isso, Atenas ficou a salvo dessa influ\u00eancia belicosa e tomou rumos muito diferentes dos de Esparta.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a morte de Codro, Atenas deixou de ser uma monarquia e criou-se a institui\u00e7\u00e3o do<strong> Arcontado<\/strong>. De acordo com Arist\u00f3teles, na Constitui\u00e7\u00e3o de Atenas, essa institui\u00e7\u00e3o foi reformada v\u00e1rias vezes ao longo da hist\u00f3ria. A princ\u00edpio, os mandatos eram vital\u00edcios; depois, passaram a ter dura\u00e7\u00e3o de 10 anos. Finalmente, o Arcontado passou a ser formado por nove arcontes, cada um com mandato de um ano, sendo tr\u00eas principais \u2014 o arconte ep\u00f4nimo (o magistrado supremo), o polemarca (comandante das for\u00e7as armadas) e o arconte basileu (respons\u00e1vel pelas cerim\u00f4nias c\u00edvicas e religiosas) \u2014 e seis ajudantes, encarregados da justi\u00e7a, chamados thesmothetai (plural de thesmothete). Os arcontes eram escolhidos entre os aristocratas, nobres nascidos em Atenas e possuidores de terras e escravos. Ao deixar o arcontado, o nobre passava a fazer parte do <strong>Are\u00f3pago<\/strong>, um conselho com poderes legislativos e judici\u00e1rios que se reunia no monte dedicado ao deus Ares. Nessa fase, apenas os aristocratas, chamados de eup\u00e1tridas, tinham direitos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o desenvolvimento do com\u00e9rcio e do artesanato aumentou a influ\u00eancia dos artes\u00e3os, os demiurgos, que passaram a reivindicar o direito de participa\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica. Al\u00e9m disso, os pequenos propriet\u00e1rios viviam insatisfeitos com a possibilidade de virarem escravos por d\u00edvidas. Querendo controlar a situa\u00e7\u00e3o, o legislador Dr\u00e1con criou o primeiro conjunto de leis escritas da cidade. Apesar de parecer uma decis\u00e3o bem intencionada, para livrar a popula\u00e7\u00e3o de abusos, as leis eram extremamente pesadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00f3digo de leis draconiano foi reformado pelo arconte ep\u00f4nimo S\u00f3lon, que ainda cedeu mais reformas, como a extin\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o por d\u00edvidas, a restitui\u00e7\u00e3o de terras que haviam sido confiscadas por d\u00edvidas e a nova divis\u00e3o da sociedade baseada em crit\u00e9rios econ\u00f4micos para redistribuir direitos e cargos p\u00fablicos. Para diluir o poder do Are\u00f3pago, S\u00f3lon criou tr\u00eas \u00f3rg\u00e3os: a <strong>Bul\u00e9<\/strong>, composta por 400 membros e respons\u00e1vel pela proposi\u00e7\u00e3o de leis; a <strong>Ecl\u00e9sia<\/strong>, assembl\u00e9ia popular que indicava membros para a Bul\u00e9 e votava as leis ali propostas; e o <strong>Helieu<\/strong>, uma corte de justi\u00e7a. Com isso, S\u00f3lon diminuiu o poder das elites sem atender \u00e0s exig\u00eancias mais radicais dos atenienses pobres. A insatisfa\u00e7\u00e3o que restou abriu caminho para a ascens\u00e3o de Pis\u00edstrato que, com forte apoio popular, tornou-se o primeiro <strong>tirano<\/strong> de Atenas, levando a cabo uma reforma agr\u00e1ria para redistribuir terras.<\/p>\n\n\n\n<p>Tempos depois, tentando apascentar a sociedade ateniense, o arconte Cl\u00edstenes instaurou a democracia direta como forma de governo. Ele diminuiu ainda mais o poder das fam\u00edlias aristocr\u00e1ticas e aumentou o do povo comum. Fez isso ampliando o n\u00famero de integrantes da Bul\u00e9 de 400 para 500 e introduzindo o sorteio como m\u00e9todo de preenchimento de cargos, de modo que todo cidad\u00e3o podia ocupar cargos p\u00fablicos. Cl\u00edstenes tamb\u00e9m reformou as for\u00e7as armadas, substituindo o antigo comandante, o polemarca, por dez estrategos eleitos anualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a maioria da popula\u00e7\u00e3o ainda era exclu\u00edda da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pois havia uma concep\u00e7\u00e3o limitada de cidadania. Segundo Arist\u00f3teles, na obra j\u00e1 citada, a sociedade do per\u00edodo democr\u00e1tico era formada por <strong>eup\u00e1tridas<\/strong>, membros da antiga aristocracia; <strong>demiurgos<\/strong>, artes\u00e3os e comerciantes; e&nbsp; <strong>georg\u00f3is<\/strong>, pequenos propriet\u00e1rios de terras. Estes tr\u00eas grupos compunham a classe dos cidad\u00e3os, que correspondia a cerca de 10% do total de habitantes. Outras classes sociais eram a dos <strong>thetas<\/strong>, marginalizados e desempregados da cidade, e a dos <strong>metecos<\/strong>, estrangeiros estabelecidos em Atenas que trabalhavam com o artesanato e com o com\u00e9rcio. Junto aos escravos e mulheres, os thetas e metecos n\u00e3o eram considerados cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer maneira, a democracia ateniense atingiu o auge no <strong>Per\u00edodo Cl\u00e1ssico<\/strong>, sob o estratego P\u00e9ricles, que instituiu os princ\u00edpios de isonomia (igualdade de todos os cidad\u00e3os perante a lei), isegoria (igualdade de direito \u00e0 palavra na assembleia) e isocracia (igualdade de participa\u00e7\u00e3o no poder e na administra\u00e7\u00e3o da cidade). P\u00e9ricles criou um tribunal popular composto por 6 mil cidad\u00e3os para julgar todo tipo de causa. A decis\u00e3o final era dada pelo pr\u00f3prio j\u00fari. Tamb\u00e9m foi institu\u00edda uma remunera\u00e7\u00e3o, a mistoforia, para os ocupantes de cargos p\u00fablicos, permitindo que os mais pobres deixassem o trabalho por um tempo para se dedicar \u00e0 pol\u00edtica. Por\u00e9m, a concep\u00e7\u00e3o restrita de cidadania continuou valendo.<\/p>\n\n\n\n<p>A complexidade de Atenas fez com que fossem organizados locais para diferentes fun\u00e7\u00f5es. O local de vota\u00e7\u00e3o em Atenas era a colina <strong>Pnyx<\/strong>. J\u00e1 a <strong>\u00c1gora<\/strong> era uma pra\u00e7a p\u00fablica no centro da cidade onde ocorriam reuni\u00f5es e debates. A <strong>Acr\u00f3pole<\/strong> era um complexo tamb\u00e9m constru\u00eddo em uma colina, que servia como fortifica\u00e7\u00e3o militar, centro pol\u00edtico e santu\u00e1rio religioso. A principal constru\u00e7\u00e3o ali era o <strong>Partenon<\/strong>, um templo, dedicado \u00e0 deusa Atena, de estilo j\u00f4nico, com capit\u00e9is ornamentados e finas colunas, dando sensa\u00e7\u00e3o de leveza, apoiadas sobre uma base decorada. A entrada na acr\u00f3pole se dava pelo <strong>Propileu<\/strong>, uma constru\u00e7\u00e3o de estilo d\u00f3rico, com capit\u00e9is simples e colunas mais grossas, sem base. Finalmente, o principal local de entretenimento e cultura da cidade era o <strong>Teatro de Dion\u00edsio<\/strong>, ao lado da Acr\u00f3pole, com capacidade para cerca de 17 mil espectadores. As pe\u00e7as apresentadas eram trag\u00e9dias e com\u00e9dias \u2014 ali\u00e1s, g\u00eaneros inventados pelos gregos. Os temas das trag\u00e9dias eram mudan\u00e7as dr\u00e1sticas na vida das pessoas; os principais autores na \u00e9poca foram \u00c9squilo, S\u00f3focles e Eur\u00edpedes. J\u00e1 as com\u00e9dias se valiam do humor para criticar os costumes, satirizar os pol\u00edticos e questionar o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es. O autor mais famoso do g\u00eanero \u00e9 Arist\u00f3fanes. Nos teatros, somente homens atuavam, mas mulheres podiam assistir \u00e0s pe\u00e7as acompanhadas por seus maridos. Os mais pobres assistiam \u00e0s encena\u00e7\u00f5es gratuitamente.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-32.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-644\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-32.png 1024w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-32-300x200.png 300w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-32-768x512.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pnyx. \u00c0 direita, pode-se ver a plataforma para discursos<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"427\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-30.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-642\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-30.png 640w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-30-300x200.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Propileu de Atenas<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-7.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-545\" width=\"526\" height=\"368\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Partenon de Atenas<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"426\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-31.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-643\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-31.png 640w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-31-300x200.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Teatro de Dion\u00edsio hoje<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Durante o Per\u00edodo Cl\u00e1ssico, Atenas foi o centro cultural da Gr\u00e9cia. Houve um desenvolvimento not\u00e1vel das artes e da filosofia com pensadores como<strong> S\u00f3crates<\/strong> e seu disc\u00edpulo,<strong> Plat\u00e3o<\/strong>. S\u00f3crates (469-399 a.C.) considerava o di\u00e1logo como o melhor caminho para atingir o conhecimento. Seu m\u00e9todo consistia em duas etapas: a ironia, na qual ele fazia perguntas ao interlocutor para p\u00f4r em xeque as suas certezas acerca de determinado conceito; e a mai\u00eautica, na qual ele fazia novas perguntas para aproximar o interlocutor do verdadeiro significado do conceito em quest\u00e3o. Por contrariar ideias tradicionais, S\u00f3crates foi considerado como uma amea\u00e7a por autoridades atenienses, acusado de corromper a juventude e condenado \u00e0 morte por ingest\u00e3o de cicuta. Ele n\u00e3o deixou nada por escrito, mas suas ideias chegaram at\u00e9 os dias atuais por meio de seu disc\u00edpulo, Plat\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Plat\u00e3o (427-348 a.C.), de fam\u00edlia aristocr\u00e1tica (era descendente de S\u00f3lon), considerou a morte de S\u00f3crates como uma express\u00e3o da decad\u00eancia ateniense, e se retirou por um tempo da cidade. No sul da It\u00e1lia, entrou em contato com os pitag\u00f3ricos, com quem aprofundou seus conhecimentos sobre matem\u00e1tica. Nessa \u00e9poca, o fil\u00f3sofo come\u00e7ou a refletir sobre a ess\u00eancia das coisas, e teve suas primeiras ideias acerca do Estado ideal.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta \u00e0 Atenas, Plat\u00e3o fundou uma escola chamada Academia, na qual se estudava filosofia, matem\u00e1tica e educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. A principal ideia que ensinava era a de que o mundo dos fen\u00f4menos \u00e9 ilus\u00f3rio, e o que se percebe dele s\u00e3o apenas sombras das verdadeiras ideias perfeitas, eternas e incorrupt\u00edveis que habitam o Mundo das Ideias. Para Plat\u00e3o, a intelig\u00eancia de cada pessoa seria uma consequ\u00eancia de tudo o que a sua alma contemplou no Mundo das Ideias antes de encarnar no mundo f\u00edsico. Por conta disso, algumas pessoas seriam fatalmente mais capazes de aprender a verdade do que outras. Essa concep\u00e7\u00e3o levou Plat\u00e3o a ser contra a democracia ateniense, pois, para ele, a cidade deveria ser governada pelas &#8220;almas de ouro&#8221;, nas quais se sobressai a parte racional da alma, ou seja, os fil\u00f3sofos, os \u00fanicos capazes de buscar o bem e a justi\u00e7a. Os demais habitantes da cidade se dividiriam entre as almas de prata, que t\u00eam a parte irasc\u00edvel da alma mais desenvolvida, \u00e0s quais caberia a defesa da cidade, e as almas de bronze, que t\u00eam a parte apetitiva mais desenvolvida, \u00e0s quais caberia o trabalho na agricultura.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da compara\u00e7\u00e3o entre a pluralidade de ideias em Atenas, com nomes como S\u00f3crates e Plat\u00e3o, e a disciplina militar de Esparta, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel perceber que as cidades gregas diferiam significativamente umas das outras. Gregos de diferentes p\u00f3leis rivalizavam e ocorriam conflitos internos. Mas havia ocasi\u00f5es em que as cidades se uniam. Por exemplo, durante a realiza\u00e7\u00e3o de eventos religiosos. S\u00edmbolos do respeito dos gregos pela religi\u00e3o e pelos deuses foram os monumentais <strong>Templo de \u00c1rtemis<\/strong> (em \u00c9feso) e a <strong>Est\u00e1tua de Zeus Ol\u00edmpico<\/strong> (do famoso escultor F\u00eddias), duas das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, ambas j\u00e1 destru\u00eddas. Enquanto estiveram de p\u00e9, foram locais de peregrina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-4.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-541\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-4.png 800w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-4-300x225.png 300w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-4-768x576.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imita\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do Templo de \u00c1rtemis<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-5-768x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-543\" width=\"352\" height=\"468\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-5-768x1024.png 768w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-5-225x300.png 225w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-5.png 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 352px) 100vw, 352px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imita\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da Est\u00e1tua de Zeus Ol\u00edmpico<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Al\u00e9m dos deuses, uma caracter\u00edstica da religi\u00e3o c\u00edvica dos gregos era a venera\u00e7\u00e3o de her\u00f3is \u2014 semideuses nascidos de relacionamentos entre deuses e mortais. Exemplos s\u00e3o Prometeu, que roubou o fogo celeste para d\u00e1-lo aos homens, sendo condenado por Zeus a ficar no alto de um rochedo, acorrentado, para que todos os dias uma ave viesse comer um peda\u00e7o do seu f\u00edgado. Zeus tamb\u00e9m teria punido a humanidade, fazendo com que Pandora abrisse a caixa (ou \u00e2nfora, dependendo da vers\u00e3o; as \u00e2nforas s\u00e3o vasos decorados) que continha todos os males. Tamb\u00e9m alvo da justi\u00e7a dos deuses, o her\u00f3i H\u00e9rcules foi condenado a cumprir 12 \u00e1rduas tarefas ap\u00f3s matar sua mulher e filhos sob efeito de um feiti\u00e7o. Foi H\u00e9rcules quem libertou Prometeu de seu aprisionamento no rochedo. No entanto, a tarefa de dar fim \u00e0 Medusa coube a outro her\u00f3i, Perseu. Mas a coragem n\u00e3o era a \u00fanica virtude dos her\u00f3is; \u00c9dipo ganhou fama devido \u00e0 sua intelig\u00eancia, quando resolveu o enigma &#8220;Qual \u00e9 o animal que anda com quatro patas ao amanhecer, duas ao meio-dia e tr\u00eas ao entardecer?&#8221;, criado pela Esfinge que aterrorizava a cidade de Tebas. Com a resposta correta de \u00c9dipo ao enigma, a Esfinge foi derrotava e a cidade teve paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, os Jogos Ol\u00edmpicos, realizados a cada quatro anos em homenagem a Zeus, tamb\u00e9m eram eventos essencialmente religiosos. Durante esse importante evento, guerras entre cidades gregas eram interrompidas e participantes de diferentes localidades se esfor\u00e7avam para mostrar o melhor desempenho nas diversas modalidades esportivas existentes. A recompensa por todo esse esfor\u00e7o era simb\u00f3lica: uma coroa com folhas de louro e a recep\u00e7\u00e3o calorosa na volta do atleta vitorioso \u00e0 sua cidade, na qual, muitas vezes, erguiam-se est\u00e1tuas em homenagem a ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra ocasi\u00e3o que exigiu a uni\u00e3o das cidades gregas, desta vez por motivos mais graves, foi quando os persas amea\u00e7aram a Gr\u00e9cia, dando in\u00edcio \u00e0s <strong>Guerras M\u00e9dicas<\/strong>. Muito do que se sabe sobre essas guerras deve-se a Her\u00f3doto, chamado por alguns de &#8220;pai da hist\u00f3ria&#8221;, que viajou at\u00e9 lugares chave da guerra e entrevistou habitantes. Os persas, na \u00e9poca em que eram governados pelo rei Ciro, j\u00e1 haviam invadido col\u00f4nias gregas na \u00c1sia Menor. Depois que essas col\u00f4nias reagiram com o apoio de Atenas, o ent\u00e3o rei dos persas Dario I decidiu atacar a Gr\u00e9cia continental, o que culminou com a batalha mar\u00edtima de <strong>Maratona<\/strong>, vencida pelos gregos sob comando do ateniense Milc\u00edades. Em resposta, Xerxes, filho e sucessor de Dario, mandou um enorme ex\u00e9rcito contra os gregos. Na batalha do desfiladeiro das <strong>Term\u00f3pilas<\/strong>, soldados espartanos, liderados pelo rei Le\u00f4nidas, e mais alguns refor\u00e7os de outras cidades, resistiram, dando tempo para os atenienses salvarem habitantes e organizarem a resist\u00eancia. Ap\u00f3s se desvencilhar dos espartanos, os persas incendiaram a Atenas abandonada e seguiram, mas a partir da\u00ed sofreram sucessivas derrotas. Os gregos ainda lutaram em mais duas grandes batalhas contra os persas: a batalha mar\u00edtima de <strong>Salamina<\/strong>, sob lideran\u00e7a do ateniense Tem\u00edstocles; e a batalha de <strong>Plateias<\/strong>, sob lideran\u00e7a do espartano Paus\u00e2nias. Ambas as batalhas foram vencidas pelos gregos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a desist\u00eancia dos persas e o fim das Guerras M\u00e9dicas, as cidades gregas resolveram fundar a <strong>Liga de Delos<\/strong> para melhor se protegerem contra potenciais invasores. A cidade de Atenas ficou respons\u00e1vel por administrar os recursos recebidos de todas as cidades para organizar a defesa da Gr\u00e9cia. Entretanto, os atenienses come\u00e7aram a utilizar os recursos em interesse pr\u00f3prio, para reconstruir a pr\u00f3pria cidade. Outras p\u00f3leis (incluindo Esparta), insatisfeitas e temendo que Atenas ficasse muito poderosa, formaram a <strong>Liga do Peloponeso<\/strong> para se contrapor \u00e0 Liga de Delos. Houve um per\u00edodo de tens\u00e3o at\u00e9 que as duas ligas declararam guerra uma contra a outra: foi a <strong>Guerra do Peloponeso<\/strong>. A principal fonte sobre esse conflito \u00e9 a obra de Tuc\u00eddides. Esse historiador foi testemunha ocular da guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Esparta contava com um ex\u00e9rcito maior e mais bem preparado, enquanto Atenas tinha uma for\u00e7a naval superior. Navios atenienses realizavam ataques costeiros enquanto a popula\u00e7\u00e3o, por ordem de P\u00e9ricles, mantinha-se recolhida dentro das muralhas da cidade, sobrevivendo de gr\u00e3os que eram importados do Egito e da Crimeia.<\/p>\n\n\n\n<p>O conflito chegou a um impasse, o que levou a uma tr\u00e9gua quando Atenas e Esparta assinaram a <strong>Paz de N\u00edcias<\/strong>, com validade de 50 anos. Nos anos seguintes, a popula\u00e7\u00e3o e as lideran\u00e7as de Atenas se desentenderam e defensores da oligarquia ganharam for\u00e7a. Atenas se enfraqueceu. Os espartanos aproveitaram e romperam o tratado de paz, cercando Atenas, bloqueando a entrada de gr\u00e3os e for\u00e7ando a rendi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final da Guerra do Peloponeso, a Gr\u00e9cia como um todo ficou debilitada. Sabendo disso, o rei Filipe II da Maced\u00f4nia (territ\u00f3rio ao norte da Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica) decidiu invadir a Gr\u00e9cia. Para ter um herdeiro \u00e0 altura, Filipe II entregou seu filho, Alexandre, aos cuidados de Arist\u00f3teles. Esse grande fil\u00f3sofo, fundador da escola conhecida como Liceu (pr\u00f3xima a Atenas), foi amigo de Plat\u00e3o, mas discordava dele quanto ao fato das ideias universais habitarem o Mundo das Ideias, pois, para Arist\u00f3teles, as ideias existem nas pr\u00f3prias coisas, e s\u00f3 se pode conhec\u00ea-las por meio do estudo e da pesquisa. Com essa mentalidade, Arist\u00f3teles desenvolveu a f\u00edsica, a biologia, a zoologia, a bot\u00e2nica, e tamb\u00e9m a l\u00f3gica e a ci\u00eancia pol\u00edtica. Tendo sido aluno de Arist\u00f3teles, <strong>Alexandre Magno (ou o Grande)<\/strong> se tornou um ex\u00edmio estrategista, organizando seus homens em enormes fileiras, armados com lan\u00e7as comprid\u00edssimas para ferir os inimigos \u00e0 dist\u00e2ncia, ao mesmo tempo em que a cavalaria (geralmente liderada pelo pr\u00f3prio Alexandre) atacava pela retaguarda. Alexandre ampliou as vit\u00f3rias de seu pai, conquistando a P\u00e9rsia, o Egito, parte da \u00cdndia e se tornando senhor do mais vasto imp\u00e9rio que a humanidade j\u00e1 vira. Ele se dizia libertador dos povos que derrotava, mas considerava a cultura grega como a melhor existente e promoveu a sua difus\u00e3o por todo o imp\u00e9rio. A mistura de tradi\u00e7\u00f5es gregas com tra\u00e7os culturais do oriente deu origem ao helenismo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"384\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-29.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-641\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-29.png 640w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-29-300x180.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mosaico mostrando Alexandre montado em Buc\u00e9falo, seu cavalo preferido<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Com a morte de Alexandre aos 32 anos depois de uma breve doen\u00e7a, o general Ant\u00edgono Monoftalmo da Maced\u00f4nia tornou-se um candidato a assumir o seu lugar. O filho de Ant\u00edgono, Dem\u00e9trio Poli\u00f3rcetes, ajudou o pai e tentou conquistar outros territ\u00f3rios, mas foi frustrado no cerco \u00e0 ilha grega de Rodes, pois os habitantes resistiram e conseguiram manter sua independ\u00eancia. Para comemorar, erigiram o <strong>Colosso de Rodes<\/strong>, uma est\u00e1tua representando o deus H\u00e9lio. Esse monumento, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo (hoje j\u00e1 destru\u00eddo devido a terremotos), indiretamente simbolizava a resist\u00eancia grega \u00e0 divis\u00e3o e dom\u00ednio dos reinos de Alexandre.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"398\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/640px-Colossus_of_Rhodes_1745.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-753\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/640px-Colossus_of_Rhodes_1745.jpg 640w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/640px-Colossus_of_Rhodes_1745-300x187.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o do Colosso de Rodes<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O general Ant\u00edgono e seu filho foram definitivamente derrotados na Batalha de Ipsos, na atual Turquia, por uma coaliz\u00e3o de outros generais que os temiam. Ap\u00f3s isso, o imp\u00e9rio de Alexandre ficou dividido entre os generais vencedores, os chamados di\u00e1docos (sucessores): a Maced\u00f4nia e a Gr\u00e9cia ficaram com Cassandro (que mandou matar a m\u00e3e Ol\u00edmpia e um filho de Alexandre), a Tr\u00e1cia (a leste da Maced\u00f4nia) e a atual Turquia ficaram com Lis\u00edmaco e a parte oriental, incluindo a S\u00edria, a Babil\u00f4nia e a P\u00e9rsia, ficou com Seleuco.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o Egito (bem como a Palestina e a Fen\u00edcia), logo ap\u00f3s a morte de Alexandre, coube a Ptolomeu I S\u00f3ter, o fundador da dinastia de fara\u00f3s ptolomaicos. Esse soberano contratou o fil\u00f3sofo grego Dem\u00e9trio de Faleros para modernizar a cidade de Alexandria, estabelecida pelo pr\u00f3prio Alexandre no Egito. Nesse projeto foram erguidos teatros, o Museu e a Biblioteca de Alexandria, a maior da Antiguidade, com cerca de 700 mil volumes. Tamb\u00e9m come\u00e7ou a ser constru\u00eddo o <strong>Farol de Alexandria<\/strong>, na ilha de Faros, conclu\u00eddo pelo filho de S\u00f3ter, Ptolomeu II Filadelfo. Esse farol tamb\u00e9m \u00e9 considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo, mas, ap\u00f3s sofrer os efeitos de fortes terremotos, j\u00e1 n\u00e3o existe mais. A luz do farol, produzida por uma fogueira acesa em seu topo, era refletida por uma enorme placa de bronze bem polida para ser vista a at\u00e9 50 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-6-771x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-544\" width=\"343\" height=\"456\" srcset=\"https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-6-771x1024.png 771w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-6-226x300.png 226w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-6-768x1020.png 768w, https:\/\/professorpaulosouza.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/image-6.png 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 343px) 100vw, 343px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imita\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do Farol de Alexandria<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Alexandria continuou sendo um centro cultural por muitos s\u00e9culos, tendo atra\u00eddo as melhores cabe\u00e7as pensantes do mundo grego. Foi l\u00e1 onde o astr\u00f4nomo Aristarco de Samos conjecturou que a Terra gira em torno do Sol e que o matem\u00e1tico Euclides escreveu a obra Os Elementos, condensando todo o conhecimento geom\u00e9trico da \u00e9poca, e deu aulas de geometria para o fara\u00f3. Este perguntou se n\u00e3o havia um caminho mais curto para aprender a mat\u00e9ria do que o caminho apresentado nos Elementos, ao que Euclides respondeu: &#8220;n\u00e3o existem estradas reais para a geometria&#8221;, numa refer\u00eancia \u00e0s bem conhecidas estradas da \u00e9poca, que ligavam pontos distantes e facilitavam as viagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m foi em Alexandria que o inventor Arquimedes, da col\u00f4nia grega de Siracusa (na Sic\u00edlia), estudou antes de fazer suas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 matem\u00e1tica, \u00e0 f\u00edsica e \u00e0 engenharia. Na matem\u00e1tica, Arquimedes resolveu a dificuldade com os n\u00fameros irracionais nascida com a crise dos incomensur\u00e1veis dos pitag\u00f3ricos. Ele fez isso sugerindo a aproxima\u00e7\u00e3o por n\u00fameros racionais de n\u00fameros irracionais sempre que estes surgissem. \u00c9 a ideia por tr\u00e1s do seu m\u00e9todo da exaust\u00e3o. Arquimedes tamb\u00e9m combateu o temor do infinito, duvidando da exist\u00eancia de quantidades infinitas no mundo material, como o n\u00famero de gr\u00e3os de areia do deserto que, apesar de grande, \u00e9 finito. Na f\u00edsica, ele descobriu o Princ\u00edpio de Arquimedes, que supostamente o ajudou a decidir se a coroa do rei de Siracusa era de ouro mesmo ou se o ourives o havia enganado, sem necessidade de desmanchar a joia. Na engenharia, Arquimedes inventou o parafuso e a roda dentada, e, quando romanos atacaram sua cidade, ele incendiou navios inimigos com espelhos refletores.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, Ant\u00edoco IV Epif\u00e2nio, herdeiro do Imp\u00e9rio Sel\u00eaucida, invadiu o Egito, afugentou o ent\u00e3o fara\u00f3 Ptolomeu V e tomou tamb\u00e9m a Palestina. Nessa \u00e9poca, Ant\u00edoco fez press\u00e3o sobre os judeus e tentou heleniz\u00e1-los, proibindo o culto ao Deus \u00fanico e instituindo o culto a deuses pag\u00e3os no Templo de Jerusal\u00e9m, onde, inclusive, sacrificou porcos \u2014 animais vistos como impuros pelo juda\u00edsmo \u2014 para Zeus. Para os oprimidos, esse insulto foi a gota d&#8217;\u00e1gua. A resist\u00eancia, liderada por Judas Macabeu (que significa &#8220;Martelo&#8221;, em homenagem \u00e0 sua bravura) \u00e9 descrita nos dois livros dos Macabeus, considerados sagrados pelos cat\u00f3licos, mas apenas documentos hist\u00f3ricos pelos protestantes. Os judeus conseguiram defender a sua liberdade religiosa. O Imp\u00e9rio Sel\u00eaucida, por sua vez, depois de chegar a competir com os romanos, foi derrubado pelos partas (uma tribo n\u00f4made), que fundou o Imp\u00e9rio Parta.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na \u00e9poca da domina\u00e7\u00e3o romana sobre o Egito, Alexandria foi o lar de Hip\u00e1tia, fil\u00f3sofa de \u00edndole neoplat\u00f4nica, matem\u00e1tica e astr\u00f4noma, comentadora da Aritm\u00e9tica de Diofanto, das Se\u00e7\u00f5es C\u00f4nicas de Apol\u00f4nio e de obras sobre astronomia, mas suas anota\u00e7\u00f5es foram perdidas, assim como seus ensinamentos filos\u00f3ficos. Hip\u00e1tia exerceu forte influ\u00eancia sobre personalidades importantes de sua \u00e9poca at\u00e9 ser assassinada de forma cruel por um grupo de crist\u00e3os radicais. Alguns historiadores consideram o assassinato de Hip\u00e1tia como o epis\u00f3dio que marcou o fim da Antiguidade Cl\u00e1ssica, embora o mais comum seja considerar a queda do Imp\u00e9rio Romano do Ocidente como esse marco hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da Gr\u00e9cia Antiga \u00e9 riqu\u00edssima e de fundamental import\u00e2ncia para a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, cujos ingredientes b\u00e1sicos s\u00e3o a filosofia grega, o direito romano e a moral judaico-crist\u00e3. A hist\u00f3ria da Gr\u00e9cia diz muito sobre o mundo atual, \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel de li\u00e7\u00f5es e uma mem\u00f3ria de acertos e erros para todas as democracias modernas e para a humanidade de modo geral. \u25a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria da Gr\u00e9cia Antiga \u00e9 dividida nos per\u00edodos Pr\u00e9-Hom\u00e9rico, Hom\u00e9rico, Arcaico e Cl\u00e1ssico. No Per\u00edodo Pr\u00e9-Hom\u00e9rico, antes do estabelecimento da civiliza\u00e7\u00e3o grega propriamente dita, houve o povoamento da ilha de Creta e da Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica por povos indo-europeus, tamb\u00e9m chamados de arianos, e a forma\u00e7\u00e3o das civiliza\u00e7\u00f5es cretense e mic\u00eanica. 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